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Gambiarra, infância e drible

Muito sabemos de gambiarras. Somos mestres nesse barato.
Temos nosso jeitinho. Gambiarra é como driblamos a fome. A
fome de recursos, de tecnologia, de arte. A fome de afeto.
Gambiarra é como driblamos a adversidade da exclusão, da
pobreza, do racismo, do sexismo, das guerras não declaradas.
Gambiarra não deixa de ser um drible. Garrincha era um
gambiologista. Dava nó nos adversários e costurava uma dança
do instante, tão imprevisível quanto casual e necessária.
Gambiologistas são dribladores. Os adversários, ao invés de
zagueiros, são as próprias adversidades do cotidiano. Como
artilheiros que, a cada fnta, despertam gritos das arquibancadas,
gambiologistas são capazes de fazer renascer as coisas devastadas.
Gambiologistas são apanhadores de desperdícios. Para eles todo
resto é proveito: torradeira, impressora, fos, ferros, placas, ftas,
pedaços de qualquer coisa. Feito alquimistas, ao transmutar
destroços desprezados, provocam renascimentos, criam novos
sentidos a coisas inúteis e inventam máquinas de acaso, de
absurdos, máquinas de passar nada. Outras vezes inventam
máquinas funcionais que driblam as adversidades cotidianas.
E, na maioria das vezes, gambiologistas ressuscitam afetos.
Neste mundo de consumo ininterrupto, em que tornamo-nos
cada vez mais insones diante da alucinação do fuxo de
produtos compulsórios e descartáveis, os gambiologistas são os
novos transdutores de afetos. Capazes de ressuscitar a
experiência compartilhada dos seres e das coisas. Como xamãs
do capitalismo tardio, surgindo dos escombros dos lixos
humanos e industriais, regeneram a singularidade da
experiência inventiva. A singularidade da capacidade humana
de ver, ouvir, sentir, tocar e trocar.
O ferro velho é o seu parque de diversões. Feito crianças criando
brinquedos, os gambiologistas enxergam nos produtos residuais,
como lembra Benjamin, o rosto que o mundo das coisas volta
exatamente para elas. Para ser gambiologista não basta
entender de tecnologia. É preciso ser driblador. É preciso ser
criança. É preciso ativar essa percepção infantil que desperta
bruscas e inesperadas relações entre as coisas. Gambiologistas
do mundo, uni-vos!!
Thiago Florencio é historiador, artista, escritor e escreveu este texto da exposição final da primeira edição do Gambiarra Favela Tech a convite da organização do projeto. 
 
Gambiarra Favela Tech é um projeto com foco em estímulo à apropriação de tecnologia criado pelo Olabi e pelo Observatório de Favelas, com o apoio da Fundação Ford. A primeira edição do projeto ocorreu em julho/15 no Rio de Janeiro. 
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